Meu livro de memórias (2ª parte)

A área da frente

Chamávamos de “área” o primeiro cômodo. Uma meia-cerca de sarrafos verticalmente dispostos sustentavam o sarrafão, pregado horizontalmente e formando apoio para os braços. Às vezes, servia também de recriminável assento, especialmente para as crianças. A “área” devia ter, mais ou menos uns cinco metros quadrados.

Aconchegante sala-de-visitas

A sala de visitas apresentava-se como segundo cômodo. Não era tão ampla. Mas abrigava, nos assentos, meia dúzia de pessoas. A mesinha, ao centro, sempre ostentava bonitos adereços. Nas paredes, podia-se ver quadros de santos e cenas bíblicas. Fotografias que recordavam momentos importantes e antepassados da família tinham, ali, destacado espaço. De uma parede lateral, abria-se a janela para a horta e o pomar.

 Os quartos de dormir

Da sala de visitas, uma porta dava acesso ao quarto de dormir. À direita Ficava a cama-de-casal do pai e da mãe, com o bidê e a “caixa”, espécie de baú, onde eram guardados roupas e outros objetos. Entrando, à porta, primeiro, passava-se pelo berço de bebê, que se encostava à cama, do lado em que a mãe dormia. O bonito guarda-roupas colava-se à parede, à esquerda do berço. Da janela do quarto, via-se a parreira, que ajustava-se à leve descida do terreno. O chão do sótão servia de forro para esse cômodo. 

Seguindo-se pelo lado esquerdo da porta do “quarto do pai e da mãe”, como a família chamava, encontrava-se o “quarto das crianças”. Duas camas, ali, acomodavam boa parte dos irmãos e irmãs, separadamente. Os primeiros colchões eram confeccionados com palha seca de milho. As cobertas eram de pena de gansos, patos e marrecos, excelentes para as noites frias de inverno.

Uma janela permitia ver o jardim e a estrada geral. As rosas-de-santa Terezinha sempre enfeitavam a vista nesta janela.  

 O corredor

Da sala de visitas até a cozinha, percorria-se um pequeno corredor. Media seus noventa centímetros, a meu ver. Folgadamente, dava passagem a uma pessoa. 

 O quarto da cama-de-molas

Na metade do corredor, à esquerda, uma porta levava ao quarto da “cama-de-molas”. Não foi sempre esse o nome deste quarto de dormir da nossa casa. Assim ele foi denominado quando meu pai adquiriu uma cama-de-molas. Isso mesmo: em lugar de palhas de milho, o colchão era feito de molas de aço. Quando a pessoa se mexia, o ruído próprio sempre se fazia ouvir. Este quarto tinha uma janela que dava para o quintal e o pomar, do mesmo lado da sala de visitas.

A escada que dava para o sótão, coberta de taboas, adentrava-se ao espaço deste cômodo.

 A cozinha

O corredor da casa trazia à cozinha, ocupando-lhe o centro. À esquerda ficava o “caixão”. Estendia-se, estreito e com repartições, por toda a extensão da parede, até a janela. Sua tampa, com queda para baixo e fixada com dobradiças, podia servir de breve assento. Naquelas repartições, guardava-se o fubá, a farinha de trigo, de mandioca, o feijão e o arroz para consumo da família.

Próximo à citada janela, estava colocado o fogão. Nosso primeiro fogão era de tijolos e cimento. O chaminé, de tijolos também, saía de trás da chapa, atravessava a parede e subia além da cobertura das casa. Mais tarde, adquirimos o fogão “econômico”. Entendo que esse denominativo referia-se ao aproveitamento da lenha, pois tinha a porta menor, que não desperdiçava o calor do fogo. O fogão de tijolos geralmente tinha a boca aberta.

Ao lado do fogão, primeiro tínhamos uma mesa com a bacia adequada para lavar louças e preparar os alimentos. Mais tarde, foi ali acomodada a “vasa”, com uma pia, da qual, por um cano, saía a água para fora da cozinha.

Pelo lado direito do corredor, encontrava-se a mesa das refeições e no canto direito da cozinha, um armário que servia para guardar as louças e a restante comida.  Em cada uma das pontas da mesa ficava uma cadeira. Em cada lado havia um banco na medida da mesa.

 O sótão

A escada que dava acesso ao sótão, sem porta, situava-se ao lado na ponta de baixo da mesa. Bastante íngreme e feita de uns quinze degraus, fazia chegar a um cômodo superior. Uma janela do lado de cima e outra do lado de baixo faziam o arejamento do ambiente. Lá eram guardadas muitas coisas, desde ferramentas até alimentos; desde arroz com casca, recém-colhido até amendoim secando para ser consumido. Conforme a necessidade, servia também de quarto de dormir.

 O forno  

Da cozinha, uma porta dava acesso ao terreiro. Pela esquerda, havia o forno à lenha, feito de tijolos e barro especial. Ali eram assados pães, roscas, batatas, amendoim, bolos, cucas, galinhas, carne de gado e de caça e etc.

 O poço

Um pouco mais à frente, encontrava-se o poço, com a correspondente caixa protetora, feita de madeira. Tirava-se a água acionando uma manivela, na qual enrolava-se e desenrolava-se a corda para fazer chegar o balde vazio ao fundo do poço e trazê-lo, cheio do precioso líquido, de volta. Uns dez metros de fundura media o nosso poço e sua água brotava, fresca, da pedra cavada. Às vezes, alguma seca fez diminuir a água daquele poço. Nunca, porém, secou-o.

 O terreiro

Pelo lado direito da porta da cozinha, depois de uns quatro metros, havia a cerquinha que protegia a entrada da casa das galinhas e cachorros. Ali, uma porteirinha fazia chegar ao terreiro. Era uma boa área de terra seca e batida, onde eram tratados os animais domésticos, principalmente as galinhas. No terreiro, eram feitos também muitos serviços. Era, ainda, espaço de divertimento para as crianças.

Rodeavam o terreiro algumas outras construções, como o galinheiro, o rancho ou paiol e a estrebaria.  Nos fundos, além do rancho, situava-se a “privada” e o chiqueiro.

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Sobre ralk

Sou evangelizador, trabalho na Diocese de Blumenau nos setores de Comunicação e Ecumenismo.
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