Comblin pergunta se bispo foi ordenado para ser cabo eleitoral

Antonio Carlos Ribeiro

O teólogo e sacerdote José Comblin, 87 anos, escreveu carta a dom Demétrio Valentini, bispo de Jales, São Paulo, expressando surpresa com o gesto que “contraria a decisão tomada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) na sua última assembleia geral, uma vez que ela decidira que os bispos não iriam intervir nas eleições.”

Doutor em Teologia pela Universidade de Louvaina, Comblin lamentou que “dois dias antes das eleições, um grupo a serviço da campanha eleitoral de um candidato, numa manobra de evidente e suja manipulação, divulgou com abundantes recursos e muito barulho esse documento, criando uma tremenda confusão em muitos eleitores”, com a fria certeza de que “os acusados já não podiam mais reagir, apresentar uma defesa ou uma explicação”.
 
Frente ao desgaste gerado, Comblin pondera que “se os bispos que assinaram o documento de agosto não protestarem contra a manipulação que se fez do seu documento, serão cúmplices da manipulação e aos olhos do público serão vistos como cabos eleitorais”.
 
O impacto desse fato não foi apenas “religioso” e nem “local”, mas atinge a instituição. “Se a CNBB não se pronunciar publicamente com muita clareza sobre essa manipulação do documento por grupos políticos sem escrúpulos”, insiste o teólogo belga, “será cúmplice de que dezenas de milhões de católicos irão agora, no segundo turno, votar pensando que estão desobedecendo aos bispos”.
 
O teólogo suspeita que “se o episcopado católico deixar a impressão de que a divulgação desse documento nessa circunstância representa a voz da Igreja com relação às eleições deste ano, muitos vão entender que isso significa uma intervenção dos bispos católicos para defender o candidato das elites paulistanas contra a candidata dos pobres”.
 
Com mais de meio século dedicado ao trabalho pastoral e à formação teológica, Comblin destaca que “os pobres têm muita sensibilidade e sentem muito bem o que há na consciência dessas elites.  Sabem muito bem quem está com eles e quem está contra eles”.

Os pobres, assinalou, “vão achar que a questão do aborto é apenas um pretexto que esconde uma questão social, o desprezo das elites, sobretudo de São Paulo, pela massa dos pobres deste país”.
 
“Milhões de pobres votaram e vão votar na candidata do governo porque a sua vida mudou”, insiste o teólogo lido e conhecido do clero brasileiro. “Por primeira vez na história do país viram que um governo se interessou realmente por eles e não somente por palavras. Não foi somente uma melhoria material, mas antes de tudo o acesso a um sentimento de dignidade”, ratificou.
 
Dado o escândalo da situação, a advertência de Comblin foi lançada em público. “A Igreja é na Europa o que é, porque durante mais de 100 anos os bispos tomaram sempre posição contra os candidatos dos pobres, dos operários. Sempre esteve ao lado dos ricos sob os mais diversos pretextos. E no fim aconteceu o que podemos ver. Abandonaram a Igreja. Cuidado!”, alertou ele os pastores e as lideranças eclesiais para o risco.
 
Mesmo admitindo que redatores agiram segundo sua consciência, “a divulgação do seu documento na véspera das eleições dava a impressão de que estavam reduzindo o seu ministério à função de cabo eleitoral. O bispo não foi ordenado para ser cabo eleitoral”, protestou. E enfatizou: “se não houver um esclarecimento público, ficará a imagem de uma igreja conivente com as manobras espúrias”.

ALC Notícias, 07/10/2010

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Sobre ralk

Sou evangelizador, trabalho na Diocese de Blumenau nos setores de Comunicação e Ecumenismo.
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